Francisco Bombini, conhecido nas redes sociais como ‘Super Chico’, morreu no dia 6 de fevereiro deste ano, em Bauru (SP), após sofrer uma parada cardíaca enquanto dormia. Daniela Bombini, mãe do menino, tenta manter viva a memória do filho e ajudar outros pais com filhos com a condição genética. Morre ‘Super Chico’, o ‘menino mais forte do mundo’
Os últimos meses para Daniela Bombini, mãe do menino Francisco Bombini, o “Super Chico”, foram de luto e de lutas.
A advogada, de 49 anos, perdeu o filho que tinha síndrome de Down e complicações de saúde no dia 6 de fevereiro deste ano, após ele sofrer uma parada cardíaca enquanto dormia. Menos de seis meses depois, em junho, recebeu o diagnóstico de câncer de mama durante um exame de rotina.
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Em meio ao processo de aceitação pela partida precoce do filho e das sessões de quimioterapia, Daniela ainda encontra tempo para atuar como ativista na Luta pelos Direitos das Pessoas com Deficiência.
Como uma super heroína, a mãe do “Super Chico” faz questão de manter a memória do filho viva, em especial neste dia 21 de setembro, Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência.
“O legado ficou! As redes sociais do Chico deram muita visibilidade em especial às pessoas com Síndrome de Down. Sou convidada para eventos relacionados à causa, no último tinha acabado de começar o meu tratamento e não consegui ir! Eu iria dar uma palestra, sobre a nossa história, fiquei triste de não ter participado efetivamente. Mas haverá outros e eu estarei lá”, revela.
Francisco Bombini, conhecido nas redes como Super Chico, recebeu a primeira dose da vacina contra a Covid em Bauru
Daniela Guedes Bombini/Arquivo pessoal
Atualmente, Daniela é Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Bauru (SP), numa gestão que vai até 2024. Antes, entre 2019 e 2021, foi Presidente da Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência da OAB de Bauru.
“Meu envolvimento na causa das pessoas com deficiência ocorreu de forma mais aprofundada após o nascimento do Chico em 2016. Antes, eu era defensora dos direitos humanos, do direito das minorias, estando as pessoas com deficiência incluídas nas minhas lutas. Hoje, posso dizer que sou uma ativista”, diz com orgulho.
Daniela é Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB de Bauru
Arquivo Pessoal
Nas palestras, Daniela faz questão de ressaltar que uma de suas lutas é contra o “capacitismo”, quando pessoas possuem crenças limitantes a respeito das pessoas com deficiência.
“Esclarecer à sociedade sobre os direitos existentes, as possibilidades e capacidades, é, portanto, urgente, para que pessoas com deficiência deixem de ser alvo de falta de informação, muitas vezes, e infelizmente, de maldade”, pontua.
Apesar do tom contra os “capacitistas”, Daniela procura também acolher quem, assim como ela, passou repentinamente a viver com pessoas especiais.
“Soube que Chico tinha Síndrome de Down apenas no dia em que ele nasceu. Na gestação, nada me foi falado a respeito. Com o nascimento dele, a pediatra viu que ele tinha algumas características da Trissomia do 21, e foi colhido o exame cariótipo para confirmar”, conta.
“Já na primeira vez que vi Chico, na incubadora, entubado, eu já questionei se ele era “diferente”, e disseram que sim. E eu disse: ‘tá bom, vamos em frente’. Mas foi uma avalanche de informações. Precisei organizar meus pensamentos. Chico tinha diversas outras comorbidades, esses sim, diagnósticos preocupantes; a Síndrome de Down não era um problema, aliás, algumas pessoas pensam que é doença, mas não é, sendo apenas uma condição genética”, complementa.
Oito mil bebês nascem por ano com síndrome de Down. No Brasil, 350 mil famílias tentam todos os dias diminuir as limitações e encontrar mais espaço.
Super Chico era palmeirense, segundo a família
Instagram/Reprodução
A síndrome de Down é causada pela presença de 3 cromossomos 21 em todas ou na maior parte das células de um indivíduo. Isso ocorre na hora da concepção. As pessoas com síndrome de Down têm 47 cromossomos no núcleo das células em vez de 46, como é comum.
Hoje a pessoa com síndrome estuda, se forma, tem profissão, se relaciona, se casa e é integrado nos grupos sociais. A expectativa de vida chega aos 70 anos.
“A notícia no momento pode impactar, mas eu garanto que tudo se ajeita! Não olhem a deficiência do seu filho, mas o ser humano que ele é! A deficiência é apenas uma característica dele, assim como todos somos diversos. Seja feliz, porque é totalmente possível”, decreta.
“Super Chico” faleceu no dia 6 de fevereiro de 2023
Instagram/Reprodução
No momento, Daniela volta às suas atenções ao câncer de mama descoberto em um exame de rotina e à saudade do “Super Chico”.
“A saudade dói muito! Tem dias que são mais difíceis, que a estou mais sensível, então, rezo, converso com ele, com Deus, peço forças. Tem dias que me pego cantando as músicas que cantava pra ele, falo ‘Bom dia, Chico’ até hoje, todos os dias. O olhar e o sorriso dele compensava tudo”, revela.
Após a descoberta do câncer ainda em sua fase inicial, Daniela deu início ao tratamento em um hospital particular de Bauru, no interior de SP, onde realiza sessões de quimioterapia. No entanto, a aceitação levou tempo e muitos questionamentos com a nova condição.
Mãe de “Super Chico” enfrenta câncer de mama e compartilha rotina nas redes sociais
Instagram/Reprodução
“Foi um baque tremendo para ser honesta. Passei pela negação, pela revolta, cheguei a questionar Deus. Me sentia um pouco injustiçada. Fiquei os cinco primeiros dias na cama, mas aos poucos fui encontrando forças. Não é fácil, mas são propósitos que nos são dados. Digo que ‘o duro é emendar o luto na luta”, comenta.
No entanto, é na própria vivência do filho que Daniela afirma encontrar inspiração para “viver um dia de cada vez” e vencer a doença. Das seis sessões de quimioterapia previstas para a aplicação do remédio, ela realiza na próxima quarta-feira (26), a quarta delas. Ao final da quimio, passará por uma cirurgia.
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Os sintomas da quimioterapia incomodam, mas não tiram a motivação de Daniela. “Estou com algumas feridas, muitas aftas na boca, mas não tive náusea ou enjoo”, relata.
Mãe do Super Chico luta contra câncer desde junho deste ano
Arquivo Pessoal
Após realizar uma série de exames, incluindo tomografias e cintilografia óssea, as boas notícias deram esperança à advogada. Felizmente, o câncer de mama não é metastático e não deve se espalhar para outras partes do corpo.
“Não vou dizer que é insuportável, mas é chato. Seguir em frente e encarar o tratamento de cabeça erguida e com positividade estou vendo que faz toda a diferença”, pontua.
Daniela conta com o apoio da família para superar câncer de mama
Arquivo Pessoal
‘O menino mais forte do mundo’
O garoto que nasceu com síndrome de Down e outras complicações de saúde acumulava milhares de seguidores nas redes sociais. Ele viralizou no ano passado e ficou conhecido no país todo ao superar a Covid-19 por duas vezes.
Na primeira delas, Chico chegou a ficar internado por 13 dias na UTI e, quando recebeu alta, foi tema de uma reportagem do Fantástico (veja abaixo). Mas, essa não foi nem de longe a primeira vez que o menino, na época com 3 anos, enfrentava a rotina de internação hospitalar.
Super Chico: menino com Down que encantou o país recebe alta após ficar internado com Covid pela 2ª vez
Super Chico precisou passar por uma cirurgia ainda durante a gestação, na barriga da mãe, e por outras seis depois que nasceu. Os procedimentos foram necessários devido a problemas renais, cardíacos e hipotireoidismo.
Logo após o parto prematuro, foram seis meses “morando” no hospital para realização desses procedimentos.
Foi quando Daniela decidiu compartilhar a rotina do ainda Francisco nas redes sociais. Para simbolizar a vitória dele sobre as complicações de saúde, ela vestia o pequeno com fantasia de super-heróis, em especial o superman.
Foi assim que surgiu o apelido “Super Chico”, como o garoto passou a ser conhecido nas redes sociais, nome inspirado nos heróis e em São Francisco de Assis (entenda mais abaixo).
Pequeno super-herói
‘Super Chico’ morava em Bauru, no interior de SP
Arquivo pessoal
Pelos seus perfis nas redes sociais, Daniela fazia postagens com fotos e vídeos de Chico e costumava “dar voz” ao filho, que apesar de ter 6 anos, tinha o metabolismo e o desenvolvimento de um bebê de 9, 10 meses, e por isso não falava.
Foi pelas redes sociais que a família compartilhou as duas vezes que o menino esteve internado por causa da Covid-19, e também comemorou quando ele completou 5 anos e pôde receber as doses da vacina.
Coincidentemente, ele recebeu a segunda dose e pôde completar o ciclo vacinal no dia 21 de março de 2021, quando é celebrado o Dia Internacional das Pessoas com Síndrome de Down.
Devotos de São Francisco de Assis
Bebê com Síndrome de Down era fenômeno na web com fantasias de heróis
Arquivo Pessoal
Chico fazia aniversário em 6 de outubro, dois dias depois do dia do santo que inspirou seu nome, São Francisco de Assis, a quem a família é devota.
Todos os anos nessa data, a família fazia um evento beneficente para arrecadar verba para entidades assistenciais da cidade. Mesmo durante a pandemia, o evento foi realizado no formato drive-thru.
No seu aniversário de 4 anos, em outubro de 2020, depois de superar a Covid-19 pela primeira vez, ele recebeu parabéns de vários famosos, inclusive do seu xará, o cantor Chico Buarque.
Comoção no adeus
Nas redes sociais, o adeus ao menino causou comoção. A postagem de Daniela sobre a morte do filho possui mais 35 mil comentários e quase 200 mil curtidas.
Nas redes sociais, o adeus ao Super Chico causou comoção
Instagram /Reprodução
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) também elaborou uma nota de pesar e lamentou o ocorrido. A mãe de Chico é presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB em Bauru. “Com muita tristeza e pesar, informamos o falecimento de Francisco Guedes Bombini”, diz a nota.
Além deles, em comentário na publicação de Daniela, a cantora Roberta Miranda confessou que amava o menino e escreveu que sente muito pela perda.
A modelo com síndrome de Down Maria Júlia de Araújo reforçou as lamentações: “O mundo vê partir um dos maiores super-heróis que já conheceu. Chico trouxe só alegria e inspiração de como devemos enxergar a nossa vida e será pra sempre lembrado dessa maneira”, escreveu Maria Júlia.
Em seu perfil oficial no Instagram, a mãe escreveu uma homenagem ao pequeno: “Tenho certo pra mim que todos temos uma missão nessa vida e a do Chico foi a de plantar sementes de amor no coração das pessoas!”.
Chico foi velado no Salão Nobre 1 do Centro Velatório Terra Branca, às 9h, e enterrado no Cemitério Jardim do Ypê, em Bauru.
Super Chico com a mãe, Daniela Bombini
Instagram/Reprodução
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Em meio a tratamento contra câncer, mãe do ‘Super Chico’ atua na luta por direitos a pessoas com deficiência: ‘O legado ficou’
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